terça-feira, 8 de maio de 2007

As duas faces de uma decisão

Henrique Fernandes
Final de campeonato Carioca. O certame, é a 210 quilômetros de minha casa, mas meu espírito está lá, vidrado no gramado do maior do mundo. Até o apito inicial do árbitro, ainda estou na primeira partida da decisão. 2 a 2 de dois jogos em um, que só serviram para começar tudo de novo na partida decisiva e para prenunciar um jogo épico. E ele veio.


O primeiro tempo, como sempre, de estudo. Dois times que se respeitam, duas torcidas que se respeitam, dois treinadores que se respeitam. Bola rolando e coração disparado. Eu, em casa, envergo a camisa tradicional que já começa a mostrar o desgaste do uso contínuo e apaixonado. Nos olhos que não desgrudam da tela, a esperança no título, no peito, a estrela. Primeiro tempo encerrado e nada: 0 a 0.


O segundo tempo começa e não tarda o grito de gol. Numa arrancada sublime de Juan, Souza estufa as redes de Max. 1 a 0 Flamengo. Juan se joga ao chão no gramado, crendo ter feito a jogada para o gol do título, se engana.


Demoram três minutos até Lúcio Flávio cruzar e Juninho marcar de cabeça o gol que recolocou o Botafogo no campeonato. Cruzamento excepcional de Lúcio Flávio, cabeçada certeira de Juninho. Lúcio Flávio. Juninho. O destino guarda algo que jamais esquecerão para dali a alguns minutos. Em uma jogada de superioridade, técnica, maestria e heroísmo, o artilheiro absoluto Dodô recebe frente a frente com Bruno e o encobre, a bola morre mansa, abraçada nas redes do Maracanã. Dodô. Bruno. 2 a 1 Botafogo. Uma virada com autoridade e belíssimo futebol. Tudo isto em menos de cinco minutos.


Aí a lógica dá lugar à mística. Um jovem de 19 anos corre indomável pela intermediária. Enverga a dez de Zico. A dez da salvação. Seu nome é Renato Augusto, o prodígio do Flamengo que não chuta bem. Eis que "aquele que chuta mal" remata de longe, um petardo forte que só pára nas redes de Max. Um chute maestral, inimaginável. 2 a 2 de um empate que coloca a decisão nos pênaltis.


O tempo se arrasta e as grandes penalidades parecem inevitáveis, mas o destino ainda reserva um sortilégio. O derradeiro. Jogada isolada do ataque do Botafogo, a última jogada do melhor ataque do campeonato.


Jorge Henrique toca por elevação e coloca o artilheiro do Campeonato com 13 gols, Dodô cara-a-cara com o goleiro Bruno. É o último lance da decisão, último minuto. Lance fatal. Dodô corre e alcança a bola. Com um toque, coloca-a a sua frente, à sua feição e finaliza no canto de Bruno, marcando o que seria o gol do título Alvinegro. O bandeira marca impedimento incorretamente, e parte o coração da torcida Botafoguense. O árbitro expulsa o heróico Dodô, alegando que o artilheiro teria chutado a bola depois de seu apito. Dodô chutou, eu também chutaria. A última bola, na cara do goleiro, com um jogador da capacidade de Dodô. Aquela bola tinha que morrer na rede, mesmo que fosse por um gol virtual.


Pênaltis.


Lúcio Flávio, exímio chutador, bate com categoria no canto esquerdo de Bruno. Bruno voa e alcança a bola. O Botafogo está abatido pela perda de seu artilheiro e por ter sido usurpado dele o direito de ser campeão por ter jogado o futebol mais bonito que se viu no Rio nos últimos anos. Tem coisas que só acontecem com o Botafogo.


Agora é Juninho que vai à bola. Bruno defende, a bola beija o travessão e caprichosamente volta à campo. Bruno, o herói pega a segunda penalidade. A segunda perdida por um artíficie do gol de empate alvinegro, aquele que lançou o Botafogo de volta a disputa aos 11 do segundo tempo. Eu disse que o destino lhes reservava algo para aquele dia. Tem coisas que só acontecem com o Botafogo.


O Flamengo está perfeito nos pênaltis, o Botafogo, ferido. Leonardo Moura decreta o título. Flamengo campeão. Alegria para 70% dos presentes no estádio. Torcedores que apoiaram o Flamengo quando o time estava na pior, vindo de uma traumática derrota no exterior, torcedores que confiaram e que foram presenteados. Agora são eles que dizem: "Somos campeões". São eles que conferem a grandeza a este time do Flamengo, que por seus jogadores é medíocre, mas que cresce com a camisa Rubro-Negra e com o grito da torcida.


Fica assim decidido o campeonato carioca. Justiça? Futebol em nada tem a ver com justiça. Mas ao analisarmos friamente a decisão, compartilho da opinião de Carlos Augusto Montenegro, vice-presidente do Botafogo: "O time do Botafogo merecia este título, a torcida do Flamengo também". Então está justo para os que gostam de justiça. Mas eu sou Botafoguense e tenho que expressar o que sinto. Quero hoje falar como torcedor. Sinto uma estranha sensação de superioridade. Sinto que o Flamengo ganhou mais não levou, já que o que ficará na memória é o futebol vistoso, bonito de Dodô, Zé Roberto, Lúcio Flávio, Túlio e não os pênaltis bem batidos por Juan, Léo Moura, Renato e pelo inexpressivo Roni. E foi isso que fez a minoria Botafoguense no Maracanã aplaudir seu time, confiantes de que o mundo não acabou com o pênalti decisivo.


A torcida do Flamengo sabe que o Fla venceu o campeonato e está feliz por isso. Mas sabe que venceu jogando pior que o adversário, sem vencer um único clássico, e que pode de uma hora pra outra, levar de três para um Defensor da vida e não ter forças para reagir. O Botafoguense sabe que o time perdeu e está triste por isso. Mas sabe que perdeu jogando melhor que o adversário, sem perder um único clássico e que pode de uma hora pra outra golear um adversário e não contar com outros fatores para perder um título seu. Dá até pra sentir o gostinho doce da vitória. O Botafoguense confia em seu time.


Coisas do futebol: um campeonato, dois campeões.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Enquanto isso, numa escola carioca...

Dois amigos, um Botafoguense e um Vascaíno se encontram no colégio, na quarta-feira pela manhã, horas antes do grande clássico da noite desta quarta. Subitamente, um descobre que o outro vai ao jogo, e ali mesmo começa a provocação, corriqueira de tantos clássicos:
- Vai perder de novo, Bacalhau! - afirma convicto o Botafoguense.
- Vou nada! É só olhar a história que você vai ver, freguês. - retruca o Vascaíno.
De fato, o Vascaíno está certo. O Vasco leva ampla vantagem em confrontos diante do Botafogo, mas a última vitória foi no Brasileiro de 2005, e em campeonatos cariocas, no distante ano de 2002.
- "Cê" acha que seu time agüenta Zé Roberto, Lúcio Flávio, Diguinho e Túlio, mané??
- Claro que agüenta, rapaz. O Cássio vai fechar o gol hoje de novo...
- E o Dodô??
- Que que ele fez no último jogo?
- Ah, acertou a trave, jogou pra caramba. Só não fez gol!
O Vascaíno desta vez não foi bem em seu argumento. O Vasco da Gama é uma das vítimas prediletas do artilheiro Dodô, e ano passado, o Bota venceu por 4 a 1, três dele. Em busca de uma de suas últimas chances de retórica, o Vascaíno ataca:
- Abedi e Leandro Amaral vão pro jogo, e vão acabar com vocês. E hoje é o dia perfeito pro Morais se recuperar!! Vai ser 3 a 0, igual contra o Flamengo.
- Vai nada, cara. O Juninho vai segurar tudo lá atrás e o nosso goleiraço Júlio César vai pegar
todas!!
Num canto isolado, um torcedor mirim tricolor está sentado, desolado. Como queria ele também
fazer parte desta discussão!! Teme por sua sorte futura dentre os amiguinhos. Teme ter de brincar com os torcedores do América, do Madureira, na pior das hipóteses até com os torcedores de Bangu e Olaria. "Deus me livre!"- ele pensa. Prefere acreditar que dias melhores virão, como já tem se acostumado a fazer.
Nisso, um moleque Flamenguista que ouvia a conversa dos rivais, resolve tomar parte na discussão. Está tranqüilo. A última vez em que foi ao Maracanã viu seu time golear por 4 a 1 o fantasma América, mesmo sem precisar, e está vendo seus dias de gozações contra os amiguinhos acabarem, já que em breve, ou o Botafoguense ou o Vascaíno poderá também estar na final. Com um sorriso largo, de quem vai a jogos da Libertadores todas as quartas, o Flamenguista afirma:
- Hoje a cachorrada vai tremer... Nem adianta. Vai dar Vascão. O Romário vai fazer o gol mil.
O pequeno Flamenguista tocou no ponto chave. Romário. Basta pronunciar o nome para os semblantes mudarem. O Botafoguense exibe um mal-simulado descaso, até um desdém fingido, mas por dentro conhece a fama do Baixinho. Quantas vezes já saiu triste do Maracanã graças aos gols dele? Quantas vezes já viu Romário frustrar os planos dos Botafoguenses? Está preocupado, mas não quer deixar transparecer. Contra-ataca:
- Romário? Quem é Romário?? Gol mil... Faz nada! Não fez semana passada, não faz hoje! Pronto acabou.
O Vascaíno também mudou quando Romário entrou na conversa. Está magoado, chateado. Gastou seu estoque de chacotas com os amigos quando o Baixinho chegou aos 999 gols, em grande estilo, contra o Flamengo, mas nos últimos jogos viu o feitiço virar contra o feiticeiro na corrida bizarra do craque em busca dos mil gols. Nada lhe tira da cabeça que os insucessos do Vasco tem um culpado claro: Romário. Por isso, nem se manifesta. Há bem no fundo de seu peito, a esperança nos gols do Baixinho, que já o fizeram sorrir e reverenciá-lo. O Flamenguista não desiste:
- Não vai?? "Cê" tá falando é do Romário, mané! O Romário é sinistro. Vai acabar com o seu
Foguinho hoje e botar o Vasco na final, cê vai ver. Não fez contra o Fla porque ele é e sempre
foi Flamenguista, mas vai acabar com vocês e eu vou morrer de rir lá em casa!
O Botafoguense então, apela enfim com o Flamenguista. Ora, se o jogo é Botafogo e Vasco, o que
faz aquele urubu a zombar-lhe às vésperas do confronto. Não aceitou o ultraje:
- Pô, que que tú, Flamenguista, tá querendo com o jogo?? Tá torcendo pro Vasco por que??
O Flamenguista então, com um sorriso largo, pousa a mão no ombro do amigo Botafoguense, e
malandramente dispara:
- Simples, meu amigo. Se o Romário fizer o mil, ele dá sossego.
O Botafoguense não se dá por satisfeito:
- Tá, torcer pro Romário tudo bem, mas por que torcer pro Vasco??
E o Flamenguista, sem perder a pose arremata:
- Pô mané, acontece que se vocês ganharem eu não sei quem vai vencer a final; mas se o Vasco for pra final do Carioca com o Flamengo, eu sei bem quem fica com o vice...

sábado, 7 de abril de 2007

Tupi FC - "Juiz de Fora merece, o Galo não"

Antes de mais nada, vou deixar as coisas bem claras: gosto do Tupi - diria até que gosto muito e tenho prazer em acompanhá-lo no estádio todo jogo - mas não sou torcedor. Não tenho com o Tupi a identificação que me faz Botafoguense, não tenho camisa, não sei de cor o hino, não conheço os títulos do Carijó - se é que há algum - nunca ouvi falar em ex-jogadores - exceto por um obscuro "Toledo" que se não me engano, já ouvi falarem uma ou duas vezes nas arquibancadas do estádio - e só o que sei sobre a história do Alvinegro Juizdeforano é a respeito da alcunha de "Fantasma do Mineirão" - mesmo assim com algumas lacunas - e que este ano, sinceramente, nem eu nem o Cruzeiro vimos.

O torcedor deve ter se empolgado quando um importante empresário do ramo das telecomunicações resolveu usar o clube mais popular da cidade como trampolim para uma almejada carreira política. Repentinamente, o clube foi alçado do limbo para a divisão de acesso do mineiro, e por milagre - ou estrela - chegou à primeira divisão. A lógica, seria que o tal empresário não tivesse dinheiro - nem conhecimento - o bastante para manter a equipe entre as grandes de Minas, mas inusitadamente, o time triunfou e hoje está a uma vitória em casa de alcançar a classificação para as semifinais do torneio e a vaga para a terceira divisão nacional.
Quem não se emocionou com o triunfo diante do todo-poderoso Atlético dentro de Estádio Municipal? Quem não se emocionou e deu pulos de alegria quando no apagar das luzes, o Tupi exorcizou o carma Ipatinga e o derrotou em sua melhor fase? O juizdeforano merecia isso, e o Tupi lhe deu.

Não acho o Tupi um grande exemplo de organização no cenário futebolístico nacional, sequer estadual. Um time dependente do dinheiro de uma empresa particular - mais precisamente de um oportunista empolgado com futebol e ávido por visibilidade - que sem eles inexistiria, e pasmem-se: "inexistiria" é mesmo a palavra, não pode ser considerado sequer exemplo de estrutura mínima dentro do futebol.

O objetivo incial é fortalecer a agremiação, para depois, buscar parceiros e tentar alguma política arrojada. Qualquer um com o mínimo de inteligência e prática em gestão esportiva, não permitiria que seu clube ficasse nas mãos de terceiros, mas foi exatamente isso que a atual gestão do Tupi fez, tapando os olhos dos torcedores com resultados - quer queira ou não - satisfatórios e ilusórios.

De qualquer maneira, a atual fase do Tupi é um sinal claro, e uma prova, de que o Juizdeforano gosta de futebol. Por mais que aqui a referência seja o futebol carioca, por mais que a torcida Carijó seja composta quase que em sua totalidade por "simpatizantes", o torcedor comparece ao estádio, faz festas bonitas, apóia o time e isso se reflete dentro de campo absolutamente. Com isso, o Galo - à duras penas, se me permite o trocadilho - avança e consegue algum êxito em suas empreitadas.

O torcedor Juizdeforano merecia um time vencedor, merecia um time que lhe desse alegria, merecia visibilidade, merecia ver Romário num claro teatro desfilar pelo gramado do estádio municipal trajando uma camisa alvinegra que ele, o Baixinho, sequer sabia que existia. É enganoso, mas o torcedor não está enganado, está feliz.

Torço para que este exemplo do Tupi - benéfico para o clube ou não - seja a semente da organização para o futebol de Juiz de Fora. Torço para que se dissemine pelas duas outras grandes agremiações da cidade e que suscite a formação de outras. Tudo é tão bonito! O estádio lotado, a torcida vibrando, os gols saindo e o time ganhando. Parece até que o Tupi existe mesmo.